Inverno pesado. A neve caía lá fora. Eu ouvia sirenes ao longe. Eu estava deitado já havia algumas horas, mas não conseguia pregar os olhos. Eu olhava fixamente para o teto escuro de meu quarto e vez ou outra me sentia observado por ela. Senti o chão tremer e ouvi o ranger da porta lá em baixo. Fechei os olhos. Passos. Um, dois, três. Música. Abri os olhos. Levantei da cama e senti meus pés congelarem em contato com o chão. Por que mesmo não calcei as meias antes de me deitar? Fui até a porta com o chão de madeira cantando sob meus pés. Coloquei as mãos na maçaneta da porta e parei. Mais passos. Um, dois, três. A música parou. Enfiei as mãos no bolso do moletom e me dirigi à janela. Flocos grossos de neve caíam lá fora. As luzes piscavam. Ouvia o som da cidade desejando estar em outro lugar. Mais passos. Um, dois, três, quatro. Um rosto me encarava na escuridão. Abri os lábios atordoado. A música recomeçou. O vento batia em seus cabelos. Ela me observava de longe. Esfreguei os olhos. O rosto havia sumido. Corri para a porta. Com uma mão na maçaneta e outra no peito parei. Os olhos me observavam mais uma vez. Passos. Um, dois, três, quatro. Virei-me. Ela estava lá e olhava fixamente para mim com seus olhos castanhos e profundos e sua pela pálida como gelo. Meu corpo jazia morto e ensanguentado nos lençóis brancos da cama. E mais uma vez acordei suando.

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