Sábado, cinco e pouca da tarde, uma amiga e eu estamos caminhando para o ponto de ônibus devidamente vestidas para a festa que já estava acontecendo desde às 15:00. E eu nunca ouvi tantas buzinas na minha vida. Conforme íamos andando e ignorando os engraçadinhos, eu vinha refletindo sobre eles e me lembrando de todos os relatos que já encontrei por essa internet infinita de meninas que passaram pela mesma situação. E o tamanho dos shorts não entra nessa história. Não preciso justificar a roupa que eu uso pra ninguém, porque enquanto duas moças para quem pedimos informação perguntam para onde iam duas mocinhas tão bem vestidas, o resto do caminho foi regado a olhares inconvenientes e buzinas insistentes. E a verdade é que os babacas serão babacas, não importa se você está ou não mostrando suas pernas. E é a verdade porque isso aconteceu há poucas semanas, comigo. Calça jeans, tênis e a camiseta do uniforme. Um babaca do outro lado da rua. Até quando?

Eu tenho medo de sair sozinha à noite, eu tenho medo de voltar para casa depois das dez, eu tenho medo de usar saias no ônibus, eu tenho medo! E não é medo de ser assaltada, é medo de ser estuprada. Levem tudo que eu tenho mas deixem meu corpo em paz. Eu ando um quarteirão para chegar em casa, com a luz do poste queimada e torcendo pra não ter ninguém nos vãos das casas ou na esquina me esperando. Eu gasto menos de três minutos, sendo que normalmente em passadas normais, eu demoraria no mínimo, cinco. Porque eu tenho medo. Eu tive medo quando tentei alertar uma moça que ela estava tentando ser assaltada. Eu tenho medo de ir em festas muito cheias, e alguém achar que eu bebi demais. Eu tenho que pensar nas roupas que vou usar nessas festas, vai que um engraçadinho tenta se aproveitar, não é mesmo? Quando vejo uma construção, atravesso a rua. É como se estivéssemos vivendo em uma selva e os homens fossem os animais selvagens.

Será que é tão difícil assim ignorar o corpo do outro? Ignorar a vida do outro? Eu poderia me estender mais, mas não vale a pena. Eu só estaria me tornando repetitiva. O tempo todo o que eu vejo são mulheres tornando-se objetos dos homens, nós pagamos menos para que eles tenham um grande cardápio para caçar, nenhum homem nunca teve de justificar o porquê ou o tamanho dos shorts, nenhum homem nunca teve de cobrir as pernas por estar mostrando os peitos ou vice-versa. Não importa nosso tamanho, cor ou classe, estamos sujeitas a abordagens inconvenientes na rua simplesmente por sermos mulheres. O tempo todo um bando de homens está lá para encarar quem quer que você seja. Mas não encarar com educação, eles simplesmente te comem com os olhos. Não estamos a salvo em lugar algum. Tudo por ser mulher.

-e da próxima vez, nem buzine-

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