Era mais um daqueles dias ruins e eu não aguentava mais ouvir o som do notebook, sentir sua fumaça quente e aguentar seu peso no meu colo. Era feriado, mas eu não dava a mínima já que não ia sair de qualquer forma. Eu daria qualquer coisa para estar em uma festa naquele momento. Já faz mais de um ano da última vez que eu saí. Mas eu também queria estar sozinha para conversar com meus pensamentos. Ultimamente a casa cheia já não é tão atrativa assim e talvez eu seja um pouco Robin no que se diz crianças. Não, apenas não. E mais uma vez eu ouvia gritos, e barulhos, e mexeção - e vida. E eu só queria estar sozinha. A melancolia da vida adulta. 

Desde que percebi que estou mais perto dos 24 do que eu achava, comecei a refletir. E minha mão dói com o manuscrito. E daqui a pouco minha mãe entra na porta com a lista de afazeres. Há quanto tempo eu não escrevo com as mãos? Essa letra me parece desconhecida. Desde que a vida adulta se instalou sem pedir licença, tenho refletido mais sobre tudo. Acho que vou comprar um caderno novo para chamar de diário. Talvez. Os 24 se aproximam assustadoramente e me fazem lembrar da carta que escrevi para a Eu de 25. Não lembro temas, não lembro nada do que está lá, mas e se eu não realizei nada do que está lá? E se o que está lá, não faz parte das minhas realizações? Eu nem me lembro quantos anos tinha quando escrevi aquela carta, e nem sei se ela vai chegar. Ela deveria fazer sentido? Crescer é uma dúvida eterna e má. Por que crescer? "Once you grow up, you can never come back", disse Peter Pan. Mas voltar para onde? Onde fica minha terra do nunca? Eu nunca me senti em casa. Eu não teria para onde voltar. E eu quero voltar? Acho que não. 

Já parou para pensar que coisa louca é essa de ser adulto? Essa coisa de crescer? Eu estava mexendo na minha planilha financeira quando me deparei com a aba da poupança. 2015 acabando, já fiz a coluna de 2016, 2017 e 2018. Em 2018 eu terei 24 anos. Pera aí, como é que é? Parece que foi ontem que faltavam cinco anos para que eu chegasse nos 20, e agora faltam só três para os 24, e parece que nem passou tanto tempo assim. Mas passou. E está passando. Nesse exato momento a vida está passando aqui dentro e lá fora. E parece que tudo está correndo. Antes crescer parecia uma coisa legal, agora é uma coisa duvidosa e cheia de dedos. E apesar de 21 parecer pouco perto de 24, 24 parece um número grande demais perto do meu 21. E 21 nem parece tão grande perto dos meus 17. Daí vem todos aqueles sentimentos. As dúvidas. As vontades. A vontade de voar, conhecer tudo, a vontade de se perder e se encontrar. Você não se sente ninguém, e se sente cansado, e frustrado. 

24 parecia um número muito distante, mas hoje ele parece cada vez mais perto. E eu me sinto como se não estivesse fazendo nada, vivendo nada, sendo ninguém. E choveu. E não sei se continua chovendo. Mas uma coisa não mudou - a previsão do tempo continua sendo tempestade. E talvez quando eu finalmente vestir a capa de chuva amarela as coisas comecem a clarear.

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