Já fazia mais de um século que os espíritos do vento mandavam essa mensagem. Todos os dias, desde cedo até à noite, eles esperavam por alguém que atendesse ao chamado. Os anjos caídos cantavam aos ouvidos humanos como um recado: saiam do nosso caminho. A cada dia o ar ficava mais quente e espesso, a névoa invadia os olhos do mundo, Helena ignorava tudo isso, era cética, só acreditava no que via. Certo dia, sozinha em casa, começou a ouvir passos, não passos, mas algo como eles vindo da sala. Nada. Olhou em volta, voltou para o quarto. Sentia-se observada. No dia seguinte e nos próximos a cena se repetiu. Certo dia ouvindo apenas os passos, em outros, vendo vultos, e em outros, ouvindo vozes. Meses se passaram conforme Helena enlouquecia com as aparições, os espíritos do vento são fortes, mas são etéreos, precisam da massa física, e Helena era a massa escolhida. Pouco a pouco ela foi definhando em loucura e começou a ser atacada também em seus sonhos.

Onde estou?
— Gardênia.
Quem é você?
— A feiticeira do ar.
O que você quer?
— Sua alma.

Helena acordou. As luzes da cidade piscavam. O poste em frente à sua casa tremia. O vento entrava por sua janela, a qual ela se lembrava de ter fechado antes de ir para cama. Olhou atentamente em volta e percebeu que não estava em casa. Ela estava em uma sala ampla e vazia, o que fazia o lugar parecer mais amplo ainda. Ela olhava em volta e tudo o que via era uma janela a sua frente e uma porta à suas costas. Andou até a janela e debruçou-se no parapeito: estava em um castelo. O vento entrava gélido pela veneziana e Helena tremia. Reparou pela primeira vez que usava um vestido longo, creme, com belos bordados até o chão. "O que está acontecendo?", ela se perguntou. Então as paredes começaram a se mover e fechar.

Dessa vez acordou suando e tremendo em sua cama, estava mais assustada do que nunca, ainda estava escuro e era inverno, mas apesar disso, sentia calor, tentou em vão voltar a dormir. No dia seguinte acordou de seu sono agitado e confuso, mas não conseguia se mexer, tentava abrir os olhos, em vão também, tentou gritar, sua boca não se abria e ela começava a sufocar, sentiu um peso em seu estômago, estava tudo escuro, o único sentido que funcionava corretamente era sua audição. Ouvia o que parecia ser sua mãe gritando e chorando ao mesmo tempo, uma lamentação, sentiu levantar-se, mas não era seu corpo físico, sentiu um arrepio na espinha: estava morta.

Observou seu corpo ensanguentado na cama branca, parecia o mar vermelho, sua mãe agarrava-se ao cadáver como se pudesse trazê-lo de volta, Helena era agora um anjo caído, seus olhos antes azuis, escureceram, sua pela branca como a neve, ficara quase transparente, seus lábios perderam a cor e seu corpo foi aos poucos definhando deixando para trás apenas seus cabelos loiros.


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