Na cidade tinha um circo com mais ou menos sessenta palhaços, e entre os sessenta tinha um que sempre andava na corda bamba. O Palhaço não gostava de altura, muito menos de correr riscos, apesar de saber que se caísse, lá embaixo lhe esperando havia uma rede de segurança. Chegou o dia da apresentação, nosso Palhaço subiu as escadas degrau por degrau, suando frio, apesar do semblante alegre. Chegou até o topo. Evitava olhar para baixo com medo da vertigem, e de cair. Abriu o guarda-chuva, respirou fundo. Colocou o primeiro pé na corda bamba que tremeu, e ele tremeu junto. Dessa vez olhou para baixo. Não tinha rede, não tinha nada. Enxergou apenas um vão. Estava alto demais para ver os espectadores? Ou o circo todo virou um buraco negro? Para onde iria se caísse dali? Para outro plano? Para outro planeta? Para uma nova realidade? O Palhaço olhou em frente encarando o outro lado da tenda e deu o primeiro passo. Abriu os braços. Deu o segundo passo. Respirou fundo. Terceiro passo. Tremeu. Quarto passo. Uma lágrima solitária escorreu por sua bochecha manchando a maquiagem. Quinto passo. Entregou-se à queda livre. Inconsciente procurou a corda, mas ela fugiu de seus dedos. Caiu direto e lento. A sensação é que o tempo tinha parado enquanto o Palhaço caía em câmera lenta. Fechou os olhos. “Devo alcançar a rede em breve”, pensou com o pouco de esperança que lhe restava. Não tinha rede. Bateu no chão de areia com força, mas mal sentiu dor. Desacordou no mesmo instante. Estava livre da corda bamba.

2 Comentários

  1. Eita, que texto bom! O final foi bem intenso, me senti na situação do palhaço enquanto lia, que desesperador. Pior que li o texto umas três vezes seguidas, adorei <3

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