ph Giulia Bertelli 

Vestido preto até o joelho, meia-calça cheia de bolinhas e jaqueta colegial. Sentada na calçada observava a vida noturna da cidade e se perguntava por que resolveu sair de casa. Tinha flashbacks do que acontecera nas últimas horas e a sensação é de que já estava ali a dias. O universo parecia dizer "vá para casa!" desde o começo, mas é claro que ela não ouvia. Era impossível se sentir mais deslocada do resto dos amigos. Se perguntava o que Elizabeth Bennet faria em seu lugar, era seu jeito de lidar com as coisas. Jane Austen era sua escapatória quando se metia em uma situação absurda demais. “São só histórias”, e isso ajudava a esquecer que estava, talvez, no lugar errado, na hora errada, com as pessoas erradas. 

Por debaixo da meia-calça sua primeira e única tatuagem aparecia – uma raposa, geometricamente desenhada, envolta em galhos secos, e quatro meses depois ela ainda se questionava o porquê da estrela e da lua junto ao seu, pelo o que ela havia pesquisado, animal totem. Era sua raposa da sorte, ela dizia. O que ninguém sabia é que a tatuagem tinha sido feita em uma noite não muito agradável e em um estúdio não muito higienizado, e ela não estava nem um pouco sóbria. Três coisas que vão persegui-la pelo resto da vida enquanto poder ver o desenho em sua perna direita. 

Os flashbacks iam e voltavam conforme ela respirava com dificuldade. Música alta, ela estava molhada. Suor? Chuva? Alguém derramara bebida? Todos derramaram bebida nela? Estava fraca e já não conseguia enxergar meio palmo à sua frente. Seus amigos sumiram. Seu estômago revirava – um pouco de medo, um pouco de fome, um pouco de ter bebido de estômago vazio. Colocou a mão no bolso da jaqueta, o celular e o dinheiro estavam ali. Apertou várias vezes o botão de início, sem resposta. Sem bateria. Suas chances de ir para casa diminuíam. Casa. Não poderia ir para casa. Só de pensar em casa sentiu uma ânsia de vômito que não achou ser capaz de sentir. Não poderia ir para casa, não desse jeito, não de jeito nenhum. Lembrou-se o motivo de ter aceitado sair assim, tão repentinamente – afastar-se de casa. 

Mas ir para onde então? Não tinha opção além de voltar para o pub. Mas voltar para lá é assinar de vez sua sentença de morte. Trovões. Um raio precedendo a chuva. Tirou os óculos, olhou para o céu. Lua cheia. Sentiu sua perna tremer, mas dessa vez, não era de medo, era de força. Respirou fundo, plantou os dois pés firmes no chão já cheio de lama e se levantou. Virou-se, olhou para a porta do bar e caminhou lentamente até o guichê. Lá dentro ouviu um tiro. 


2 Comentários

  1. ai credo, não faz isso, agora eu estou aqui roendo as unhas pra saber mais sobre essa personagem e essa história? Um tiro? que tiro? quero saber!!!!


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    1. DESCULPA AUHUSHAUUSHS tenho sérios problemas com o começo e o fim das histórias, eu só sei escrever o meio, mas já tô trabalhando na continuação e pensando no começo pra contextualizar, aguarde cenas dos próximos capítulos <3

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