Não dava para saber se ela tinha pés, era etérea demais. Não dava para saber se aquilo era um vestido ou sua pele esbranquiçada, ela era quase transparente. Seu cabelo ia do azulado ao lilás numa mudança na luz do sol. Seus olhos expressivos me encaravam, mas eu não sentia medo daquele ser, até então, desconhecido. Queria tocá-la, ver se ela era real. Mas sentia que se chegasse perto demais ela poderia desaparecer. Ela pairava ao meu redor, como numa dança solitária. Eu conseguia sentir sua energia me dando vida. Sua respiração era como vento, como brisa, me arrepiava todos os pelos do corpo. Sua aura brilhava, forte. Sua presença se fazia dentro de mim. Não queria piscar ou fechar os olhos, se o fizesse podia perde-la, para sempre.

Ela se aproximou. A um palmo de distância, nossas respirações entrecortadas, ela me olhou fundo nos olhos como se pudesse ver a minha alma, e talvez pudesse. Ela sorriu. O sorriso mais lindo que já vi. Me segurei para não coloca-la em torno de meus braços. Ela estava perto demais. A floresta se agitava conforme nossos corações se agitavam. A água do lago ia ficando mais brilhante. Era lua cheia. E a lua iluminada a pequena cascata que era o único som que conseguíamos ouvir, depois de nossos corações.

Tic-tic-tic-tic.

Algo parecia martelar a árvore atrás de nós. Corujas começaram a conversar. Corvos davam rasantes ao nosso redor. Seu corpo começara a brilhar, como um milhão de jóias. Pela primeira vez ela me tocou. Pegou a minha mão, me levou até o lago, eu estava hipnotizado. Entrei. A água que estava quente foi se esfriando com o contato de nossas peles. A lua estava acima de nós, apenas nos observando. Não sentia vergonha, nem medo, estava entregue. 

Pela primeira vez naquela noite fechei os olhos, e tudo que parecia ter vida enquanto eu olhava, ganhou mais vigor ainda. As luzes ficaram mais fortes, os sons, mais altos, o toque, mais intenso. Mergulhei, no lago e na ninfa que me apresentou aquele mundo mágico. Já não me sentia eu mesmo. Era outro. Um eu melhorado. Mais fundo fomos naquele lago, mais alto os animais gritavam. Enquanto o leite escorria, senti que minha alma escorria junto. 

Já não sentia. Mais nada. 

Ao acordar a floresta, a ninfa, as corujas, tudo havia ido embora, me restara apenas meu lençol sujo e um vestido, azulado, quase transparente, pendurado na porta do guarda-roupa.

"Amor, vem tomar café!"

Inspirado nessa foto maravilhosa que a Pabllo Vittar postou no twitter.

2 Comentários

  1. Ah, que texto lindo <3
    Amei esse texto, de verdade, não tenho nem o que falar sobre ele. Parabéns pela escrita!

    Carol Justo | Pink is not Rose

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