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Ágatha, Pietra e Theo descobriram essa casa no fim da minha rua. Segundo eles é a casa mais antiga da cidade. Eu moro em um bairro histórico e todas as casas têm esse aspecto de engenhão, brancas manchadas pelo tempo, janelas pequenas e quadradas que quando abertas mal deixam a luz entrar. A aparência já é assombrosa, mas os três me disseram que aquela casa é, literalmente, assombrada.

Eu não sou de dar para trás, mas sempre odiei histórias de terror. Não assisto esse tipo de filme, não leio esse tipo de livro, mas são meus amigos, o que posso fazer? Fui com eles.

Eu nunca havia notado como minha rua era mais para cima. Tinha subido no máximo um quarteirão. Era bem cedo, antes das 7:00 da manhã e o dia estava frio, havia neblina por toda parte. Não se ouvia uma alma viva passando por ali. Claro, meu bairro é meio afastado do centro da cidade, mas pelo menos ao redor de casa se ouve motocicletas, carros e gente vendendo de tudo um pouco. Ali, só se ouvia o silêncio.

Como era de se esperar, ninguém quis entrar na casa e já que era “meu bairro” como expressou firmemente Pietra, eu deveria ser a primeira a abrir o portão. Mal entrei no quintal da casa que aos fundos vi o que parecia ser uma lápide, ignorei. Ao lado da janela que dava para a sala, uma grande árvore frutífera, mas sem fruta alguma, e a minha frente, uma grande porta de madeira. A casa era feia e estava desgastada com o tempo, estava vazia há anos, mas para mim, não via nada de assombrado, ainda. Não ali fora.

Theo sugeriu que nos separássemos. Ele ficaria com o quintal, Ágatha a casa dos fundos, Pietra com a parte debaixo do casarão e eu com a parte de cima. Como Theo estaria do lado de fora apostou que quem fosse o primeiro a sair pelo portão pagaria a entrada de It: A Coisa no cinema para todos.

Subi as escadas. Um passo após outro eu conseguia ouvir as escadas rangendo. Estava escuro lá em cima, com o tempo nublado não havia luz alguma para iluminar os cômodos. “Por que não trouxe uma laterna?”, pensei. Quando subi o último degrau encarei um corredor cheio de quadros e várias portas.

CLAC!

Olhei em volta, nada. Era só a sola do meu sapato fazendo força demais no chão de madeira, mas algo estava errado, eu conseguia sentir. “Telefones celulares têm lanternas!”, fiquei extasiada com a ideia. Levei as mãos no bolso da jaqueta, nada. Eu sempre carregava meu celular ali. Eu lembro de ter pego ele em casa antes de sair. “Droga!”. Sozinha, no escuro, numa casa abandonada.

Sozinha?

O silêncio fazia barulho, e eu não havia movido um músculo desde que cheguei naquele corredor. Não ouvia nada lá em baixo. Não ouvia nada a minha volta. Não ouvia nem o vento batendo nas árvores. Resolvi seguir em frente. Desejava estar usando um sapato mais leve. “Péssimo dia para usar coturnos”, refleti em voz alta. “E para usar vestidos”. Aquela voz estava na minha cabeça, e ela não era minha. Segurei a barra do meu vestido com força e andei mais depressa. Forcei a primeira porta - trancada. Ou emperrada. A segunda. O mesmo. Encarei os quadros, eles me encararam de volta. Apesar da escuridão, conseguia ver seus olhos com impressionante precisão. Duas crianças. Um menino e uma menina. No outro quadro uma mulher. No quadro em frente a terceira porta, que também não quis se abrir, um homem. Quarta porta, entreaberta. A porta no fundo do corredor, um chave.

Parei diante da quarta porta e num sopro de coragem a empurrei. Era um quarto de criança. Havia um berço, duas camas de solteiro e, para variar, mais um quadro, dessa vez de um bebê abraçado a um cachorro. A janela aberta fazia a cortina balançar, mesmo que eu não sentisse ar algum entrando. Ouvi o som de um telefone. “Numa casa abandonada há tanto, as linhas não foram cortadas?”. Resolvi ignorar. E sair daquele quarto moribundo. E ficava cada vez mais escuro. Meu bom senso me dizia para ir embora, descer as escadas, sair pelo portão e comprar as porcarias dos ingressos para aqueles três… Mas a curiosidade me fazia virar a chave da última porta.

O telefone toca mais um vez. Destranco a porta. Há um homem sentado atrás da mesa. Estou no escritório da casa. A casa parece ganhar vida. Ele me olha mas parece não me ver. Dou as costas e encaro o corredor iluminado. Passos para lá e cá, ouço som vindo da cozinha e várias vozes falando ao mesmo tempo. Desço as escadas. Várias pessoas organizando a mesa de jantar, a sala virou um salão, não consigo encontrar Pietra em lugar algum, e apesar da casa lotada, ninguém parece me notar. “Os mortos não veem os vivos?”, até os vivos não veem os vivos, onde estão meus amigos?

Vejo algo brilhando perto do assoalho da porta, ao me aproximar vejo que é uma faca, mas não uma faca comum, haviam inscrições no seu corpo e pedras preciosas no punho e ao toca-la fui levada de volta ao escritório. O homem havia se retirado. O escritório agora parecia maior, queria entender o que estava acontecendo, comecei a folhear o livro que estava em cima da mesa, ele devia ser um governador ou ago do tipo, eram documentos da cidade.

No final do livro há um pequeno compartimento onde há guardado um caderno, estranhamente familiar. Ao abri-lo, uma surpresa, aquele caderno era meu. Não meu, mas já foi meu. Uma parte da minha memória foi ficando cada vez mais clara. Eu morava ali, eu morri ali. Coisas que só apareciam em sonhos foram recordadas. Minha letra era a mesma a 33 anos atrás. Fui a esposa do governador. Senti uma dor imensa no peito, a faca ficou escarlate. A faca. Foi com ela que me matei. A enfiei no coração.

“Descubra o porquê, e estará livre.”, disse a voz.
“Quem é você?”, criei coragem para perguntar, “me ajude, o que está acontecendo?”.
“Ora, mas não se lembra, Bobinha Bolena”.

Segunda-feira. 5:55 da manhã. Caí da cama. “Ana! Ana!”, estava tonta, mas essa voz eu conhecia. “Ana! Acorde, Ana! Está atrasada!”, era minha mãe.

Era meu primeiro dia de aula do último ano do ensino médio. Subi a rua com pressa e ao passar na frente da casa abandonada, me veio um frio na espinha, me sentia sendo sugada para lá mais uma vez. Mas algo estava diferente. A luz do escritório, acesa. Entrei na casa, dessa vez sem medo, subi as escadas, ao levar a mão no bolso da jaqueta não só encontrei meu telefone, como a faca. Branca como no dia anterior. Eu morri, e minha alma estava presa. Sendo mais exata, dividida. Jamais conseguiria viver plenamente esta vida sem me desprender da anterior. Segui meu instinto, entrei no meu antigo quarto que dessa vez não estava com a porta emperrada. Tudo parecia fluir dessa vez. Repassava o dia de minha primeira morte na minha mente.

“Um raio pode cair duas vezes no mesmo lugar. Uma pessoa pode morrer mais de uma vez. Liberte-se. Liberte-me.”

Era um mal dia para usar vestidos, principalmente um vestido branco.

Enfiei a faca no mesmo lugar da vida anterior. Na minha mancha de nascença. Senti a vida se esvaziando. Meu corpo brilhava. Incendiava. Após o último sopro de vida sair de meu corpo ouvi apenas uma palavra: “Obrigada.”

Não sei por quanto tempo fiquei apagada, só sei que as únicas peças que sobreviveram foram a minha jaqueta e minhas botas, sentia um cheiro de enxofre no ar e ouvia sirenes. A casa estava em chamas. Corri até o guarda-roupa e peguei o único vestido que estava lá dentro, parecia ter sido feito para mim, para esse momento. Era meu, afinal. Minha única lembrança desse dia terrível e libertador.

Saí pelos fundos, os bombeiros jogavam água pela casa, mas era possível vê-la derreter como se fosse de papel. Fui rumo a lápide lá dizia “Ana, bela, esposa, mãe”. Meu coração bombeava forte, era minha única prova de que estava viva. Ao lado das flores mortas, o diário.

“Deixe queimar.”

Enfiei por fim a faca no caderno de couro deixando ambos fincados no chão. Eles seriam engolidos pelo fogo assim como aconteceria comigo se não saísse dali. Finalmente, bem longe daquele inferno olhei para o céu, fuligem caía como se fosse neve suja e apesar de ser dia, conseguia enxergar três estrelas brilhando, e sabia exatamente quem eram. Theo, Ágatha e Pietra. Meus anjos, meus filhos.

Os personagens e fatos nessa história são fictícios e qualquer semelhança 
com a realidade é mera coincidência.

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